Amazon

Banner 728x90

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

Afinal, quem são os anões?





 Dáin Pé-de-Ferro

Os anões são o povo em destaque em “O Hobbit”. Mas pouco se sabe a respeito deles, salvo que são habilidosos na mineração e no trabalho com metais, teimosos, e que são de baixa estatura, dentre outras características obtidas num primeiro olhar.

Contudo, os anões são uma raça muito mais complexa do que comumente se pensa, tanto em sua origem e costumes, quanto em seus feitos na Terra Média.

J.R.R. Tolkien, no “Apêndice F” de “O Senhor dos Anéis” (WMF Martins Fontes) comenta a respeito: “Os anões são uma raça à parte. O Silmarillion relata sua estranha origem e a razão pela qual são semelhantes aos elfos e aos homens, e, ao mesmo tempo, diferentes deles (...).”

Com efeito, em “O Silmarillion” conta-se que Eru Ilúvatar, o deus único da mitologia de Tolkien, após ter criado Arda, a Terra, tinha em mente povoá-la com seres inteligentes e falantes. Tendo tomado conhecimento dessa intenção, o Vala (um dos poderes angelicais criados por Eru) Aulë, o Ferreiro, resolveu adiantar-se ao seu Senhor, criando seres semelhantes ao que teve conhecimento, mas à sua maneira, fazendo-os fortes, resistentes e obstinados para resistir às investidas de Morgoth (a princípio Melkor, também um Vala, que se rebelou contra Eru e se tornou “O Senhor do Escuro”, a quem Sauron servia e depois deu sequência aos seus intentos malignos), quem há muito tinha deixado as Terras Imortais para atormentar a Terra Média.

Quando Eru descobriu o que Aulë fizera, repreendeu-o por ter se adiantado na tarefa que cabia somente a Ele. Em resposta, Aulë pegou seu grande martelo para destruir os seres que criou, ao que estes, assustados, encolheram-se de medo. Ao ver isso, Eru ordenou que o Vala não o fizesse, pois já era tarde demais, as criaturas já estavam vivas e tinham sensibilidade. Então ordenou a Aulë que as fizesse dormir nas profundezas da terra, até o dia em que lhe fosse concedida a licença para deixá-los caminhar sobre o mundo.

Esta é, pois, a origem dos anões, ou naugrim, como foram chamados desde o princípio, e chamavam a si próprios de khazad. Após elfos e homens colonizarem a terra pela vontade Eru, os anões despertaram de seu longo sono, e se juntaram a eles em seus feitos e lutas contra Morgoth e depois Sauron. 

Logo, os anões não são homens de baixa estatura, ou que nos dias atuais possuem uma mutação genética chamada de Nanismo, nem nascem das pedras ou de um gigante morto, como sugere muitas crenças absurdas dos homens, são uma raça à parte, como os elfos e os hobbits. 

O fato é que os anões eram uma raça que se multiplicava devagar, pois não haviam muitas mulheres anãs, as quais não chegavam a um terço de seu povo, e deste número, menos ainda de um terço se casava e proliferava. As crenças infundadas tiveram mais respaldo ainda no fato de que as anãs só deixavam seus lares em extrema necessidade, e eram tão semelhantes aos anões na voz, na aparência e nas roupas que poucos poderiam distinguí-los uns dos outros.

Mesmo após seu longo sono nas profundezas, os anões despertaram conservando as características com as quais Aulë os fez. O próprio Tolkien faz a descrição da raça no “Apêndice F” de “O Senhor dos Anéis”: “São em geral uma raça resistente e obstinada, reservada, laboriosa, que conserva a lembrança de injúrias (e de benefícios), amante da pedra, das gemas, das coisas que adquirem forma nas mãos dos artesãos mais do que daquelas que vivem por si mesmas. Mas não são maus por natureza, e poucos serviram ao Inimigo de livre vontade, não importa o que possam ter alegado os relatos dos homens. Pois os homens de outrora cobiçavam suas riquezas e as obras de suas mãos, e houve inimizade entre as raças.”

Tal relato explica ainda porque os anões não são uma raça tão “popular”, e porque muitas vezes serem tratados como seres meramente mal-humorados, mesquinhos ou gananciosos. Da mesma forma que os dragões desceram do norte para pilharem seus tesouros (Ver post “Estrelando Smaug, o dragão, e sua espécie”), homens e elfos em algum momento também procuraram obter indevidamente vantagem sobre suas habilidades ou tesouros sempre conseguidos arduamente.

De longe o traço da raça que mais se sobressai é sua habilidade com trabalhos manuais, especialmente envolvendo metais e pedras, preciosos ou não. São obras suas, por exemplo, os portões de Moria e seus majestosos salões, a cota de Mithril que salvou a vida de Frodo, e os novos portões de Minas Tirith, após a Guerra do Anel, dentre inúmeras outras obras.
Nenhuma arma na Terra Média, com excessão de algumas espadas lendárias élficas (como Orcrist e Glamdring, por exemplo) poderia ser comparada aos machados e outras armas dos anões, fato, aliás, que pendeu a favor de sua vitória em Azanulbizar, sua guerra contra os orcs, os quais tinham força superior em número.

Ao que parece, os anões não tinham o hábito de dar nomes próprios às suas armas, mas nem por isso elas deixaram de fazer diferença nos grandes feitos da Terra Média. Um exemplo é a trágica “Batalha das Lágrimas Incontáveis” (ou em élfico Nirnaeth Arnoediad), onde o terrível dragão Glaurung quase teve sua resistente couraça rompida pelos machados dos anões do reino de Belegost, e finalmente, quase foi morto pela faca do rei anão Azaghâl.
Nessa mesma ocasião, ficou evidente outra característica exclusiva dos anões: sua resistência ao fogo e ao calor, pela qual conseguiram resistir às chamas de Glaurung e cercá-lo, segundo é narrado em “O Silmarillion”.

Finalmente, outro traço marcante dos anões é sua longevidade: facilmente ultrapassam dois séculos de idade com vigor. O rei Dáin Pé-de-Ferro (quem aparecerá nas próximas sequências do filme), quando sucumbiu lutando impetuosamente com seu machado em Valle, durante a Guerra do Anel, tinha 252 anos. O próprio Thorin Escudo-de-Carvalho tinha 195 anos quando morreu na Batalha dos Cinco Exércitos.

A linguagem dos anões

Em geral, os anões usavam a língua comum, o Westron, ou a língua dos homens junto dos quais porventura vivessem, uma vez que, após a destruição de seus reinos por dragões ou outras criaturas maléficas, se tornaram um povo errante.

Por isso, seus nomes, como Gimli, Óin, Glóin, etc., eram originários de línguas humanas, enquanto seus nomes verdadeiros, em sua própria língua, jamais revelavam a ninguém de outra raça.

A sua língua de origem, por sua vez, foi aprendida por poucos além de sua raça. Como escrita, utilizavam os Cirth, ou o Alfabeto de Daeron, um elfo menestrel e mestre da tradição do rei Thingol de Doriath, um reino élfico da Primeira Era, quem elaborou uma forma mais rica e ordenada. Eram letras semelhantes às runas nórdicas atuais, e passaram dos elfos para os anões na época da estreita amizade entre as duas raças, quando os reinos Eregion dos elfos e Moria dos anões eram vizinhos na Segunda Era. Mas ocorria também de muitos anões conhecerem os Tengwar de Fëanor, a escrita élfica, embora os Cirth sempre fossem utilizados para registrar sua língua.

Os anões de Erebor, reino de Thorin Escudo-de-Carvalho, introduziram algumas alterações nos Cirth, que passaram a ser conhecidas como “Modo de Erebor”, do qual um exemplo pode ser encontrado no Livro de Mazarbul (o diário que Balin, um dos 12 anões em “O Hobbit”, manteve juntamente com seus seguidores enquanto tentavam recolonizar Moria após a retomada de Erebor, achado tempos depois pela Sociedade do Anel na câmara onde o próprio Balin estava sepultado).

Em outro post anterior, “Como Thorin e os anões salvaram a Terra Média”, discorro sobre o papel imprescindível dos anões na última guerra contra Sauron, e como eles resistiram à sua tentativa de submetê-los e transformá-los em sombra através dos Anéis de Poder.
Enfim, se há alguma coisa que cabe dizer sobre os anões, é que são um povo injustiçado, apesar de seu modo particular de ser, foram inimigos incomparáveis do Inimigo, em sua baixa estatura, foram gigantes contra o mal sem medida que ameaçou devorar todos os povos livres da Terra Média.

Nem mesmo quando Sauron tentou aliciá-los, prometendo-lhes os 3 que restavam dos 7 Anéis de Poder que foram dados aos anões outrora, o que sabidamente era sinônimo de tesouros e poder; assim como a devolução do reino de Moria, a “Maravilha do Mundo do Norte” nunca esquecido pelo coração dos anões, desejando em troca que dissessem onde estava Bilbo e o Um Anel, uma vez que conviveram por um tempo (como narrado em “O Hobbit”) eles não se deixaram levar pela malícia enganosa de Sauron, e por duas vezes Dáin Pé-de-Ferro mandou o mensageiro de Sauron sem resposta à sua “oferta”, conforme foi relatado por Glóin, pai de Gimli, no Conselho de Elrond (“A Sociedade do Anel).

sábado, 10 de agosto de 2013

Estrelando Smaug, o Dragão e sua espécie

Smaug incinerando Valle


“A noção de que carros possam ser mais “vivos” do que dragões ou centauros é curiosa; que sejam mais “reais” do que cavalos é pateticamente absurdo.”  
J.R.R. Tolkien

Ninguém estava lá para ver, ou talvez em eras posteriores alguém ainda cantasse sobre a Batalha do Pico (...). Mas o que diriam nas canções? Aqueles que olharam para cima de um ponto distante pensaram que a montanha estava coberta pela tempestade. Ouviram trovões, e relâmpagos, diziam eles, atingiam Celebdil e ricocheteavam em línguas de fogo. Isso não é o bastante?
 Gandalf, falando sobre sua luta contra o Balrog em Moria.


Em breve, na sequência da trilogia filmada de O Hobbit, “A desolação de Smaug”, o público será apresentado ao grande vilão da jornada de Bilbo e os anões: O dragão Smaug.

Smaug é retratado como um dragão vermelho (ele é as vezes é citado como “Smaug, o Dourado” devido, certamente, ao brilho do ouro sobre o qual se deita refletido em sua couraça) com asas, de quatro patas, recoberto de escamas e pedras que tornam seu corpo impenetrável. Na obra, uma frase o resume bem: “um dragão especialmente ganancioso, forte e mau”.

Dragões são criaturas do imaginário humano de quase todos os povos antigos, constituindo uma de suas manifestações culturais mais remotas.

No caso da mitologia de Tolkien, os dragões são tributários ao seu conhecimento sobre mitologia nórdica/ germânica, e seus respectivos dragões e características.

Na lenda germânica de Siegfried e Fafnir, uma das fontes que certamente inspiraram a criação dos dragões da literatura de Tolkien, o anão Fafnir é transformado em um dragão pela sua ganância, lutando contra o herói Siegfried.

Outra fonte de inspiração para o mestre de Oxford foi o período medieval, cujas tradições e narrativas ele igualmente conhecia bem como as do Ciclo Arturiano ou Rei Arthur. O próprio pai de Arthur, o rei Uther, era conhecido como Pendragon, ou “Pequeno Dragão”.

Ainda durante a Idade Média na Europa, houve inúmeros relatos sobre dragões, inclusive de batalhas entre eles e humanos, os quais ganharam também descrições detalhadas em vários bestiários da Igreja Católica, tidos então como registros inquestionáveis de sua existência.

A imagem do dragão foi tão marcante no período medieval, que vários reis o adotaram como símbolo heráldico (brasão que simbolizava a família do nobre).

Na literatura de J.R.R. Tolkien, os principais dragões foram Ancalagon, o Grande, o qual aterrorizou especialmente os elfos durante a Primeira Era, sendo derrotado por Eärendil, um elfo que navegava os céus com um barco voador.
Também durante a Primeira Era, existiu Glaurung, um dragão sem asas quem, juntamente com sua prole, afligiu tanto elfos quando anões e homens, especialmente os últimos. Na “Batalha das Lágrimas Incontáveis” (Nirnaeth Arnoediad) quase foi morto pelas armas dos valentes anões de Belegost, mas encontrou seu fim nas mãos de Turin, filho de Húrin, quem enterrou-lhe até o punho sua espada negra Gurthang.

 Túrin mata Glaurung
Durante a Segunda Era, período com poucos registros, praticamente não há grandes relatos envolvendo dragões. Contudo, durante a Terceira Era, eles ressurgiram com força total.
Por volta do ano de 2570, eles reapareceram no extremo norte da Terra Média e escolheram os anões como suas vítimas prediletas para pilharem seus tesouros, uma vez que, conforme explica Tolkien em O Hobbit, embora não possuíssem senso de valor, dragões eram criaturas gananciosas que apreciavam o ouro, prata e pedras preciosas, sendo capazes de dar falta da menor peça extraviada de sua pilhagem.
Em 2589, Dáin I, tataravô de Dáin II, ou Dáin Pé de Ferro, senhor dos anões das Colinas de Ferro (quem aparecerá nas sequências de O Hobbit no cinema) foi morto por um “dragão-frio”, nas Ered Mithrin (Montanhas Cinzentas).
A propósito, conta-se que, dos 7 Anéis de Poder dados por Sauron aos reis anões, 4 foram destruídos pelo fogo de dragões (ver post anterior).
Pouco lembrado, há também Scatha, o grande dragão de Ered Mithrin o qual também matinha uma grande e rica pilhagem, o qual foi morto por Fram, um dos senhores ancestrais do povo de Rohan (A Terra dos Cavaleiros).
Finalmente, em 2770, Smaug ataca Erebor, o reino de Thrór, avô de Thorin, dizimando seu povo e forçando os sobreviventes ao exílio e à miséria.
Sem dúvida, ele foi o pior de todos os dragões da Terceira Era. Tamanha era sua ameaça que Gandalf, preocupado com o possível uso de seu terrível poder por Sauron, o qual já se manifestava à procura de seu Um Anel para dominar a Terra Média, procurou Thorin, quem queria se vingar do dragão, para juntamente com o hobbit Bilbo organizar uma expedição para neutralizá-lo em Erebor, tema maior da narrativa de “O hobbit”.
Graças aos feitos indiretos de Bilbo, Gandalf e os anões, Smaug é derrotado, fato que teve grande repercussão no futuro, decidindo os rumos da Guerra do Anel, segundo o próprio Gandalf conta posteriormente a Frodo e Gimli (Ver post “Como thorin e os anões salvaram a Terra Média).
 
Sobre as montarias aladas dos Nazgûl, os Espectros do Anel: não se tratam de dragões, e sim de outra criatura, conforme descreve o próprio Tolkien, em “O Retorno do Rei” (O Senhor dos Anéis): “E, para a supresa de todos, era uma criatura alada: se era um pássaro, então era maior que todos os outros pássaros, e era nu, sem penas ou plumas, e suas enormes asas eram como membranas de couro entre dedos de garras; e seu corpo fedia. Talvez fosse uma criatura de um mundo mais antigo, cuja espécie, sobrevivendo em montanhas esquecidas e frias sob a lua, perdurara além de seus dias, e em ninhos hediondos criara esta última criatura extemporânea, voltada para o mal. E o Senhor do Escuro a acolhera, alimentando-a com carnes nojentas, ate que crescesse além da medida de todos os seres voadores; depois deu-a de presente a seu servidor, para que fosse sua montaria.” Tal descrição leva à pergunta: teriam sido tais criaturas remanescentes ou parentes dos dinossauros chamados “Pterodáctilos”?

Dragões existiram de verdade?

Na História humana tida como “real”, os registros mais antigos da fera datam de 40.000 anos a.C., através de pinturas rupestres feitas por aborígenes australianos. A origem da palavra “dragão” vem do grego “drakôn”, cujo significado seria algo como “grande serpente”.

Da Ásia à Europa, existem várias descrições de dragões, passando por diversos povos e culturas, desde simples cobras gigantes a seres sobrenaturais dotados de poder. Dentre os indígenas brasileiros, por exemplo, existe o Boitatá, uma cobra gigantesca que cospe fogo e persegue quem incendeia florestas, enquanto entre os vikings havia a terrível serpente marinha Jorgmungand, que aterrorizava os guerreiros nórdicos.

Curiosamente, essa onipresença cultural do dragão independe de contato entre culturas, isto é, trata-se de um mito original de cada povo.

Sobre a existência dos dragões no mundo real, existem duas teorias.

Uma delas diz que os dragões surgiram da simples observação do ser humano primitivo de restos fósseis de dinossauros ou de ossadas de outros animais gigantes, concebendo, assim, em suas mentes criaturas gigantescas e ameaçadoras, as quais não raro se tornaram protagonistas de lendas como adversários supremos de seus heróis. Sob esta perspectiva, dragões não passariam de produto da imaginação humana.

Já a outra teoria baseia-se em evidências e registros históricos, como os apontados acima (pinturas rupestres, bestiários, etc.), e observação científica da natureza, método utilizado inclusive por um documentário do canal Discovery Channel de 2006: “Dragões: Uma fantasia que se torna realidade”, explicando como os dragões teriam existido de fato.

Assim como os povos primitivos poderiam ter imaginado (ou deduzido?) a existência de criaturas terríveis através da observação de esqueletos fósseis, estes por si só respondem em grande parte a pergunta. Ossadas de répteis gigantes voadores, chamados vulgarmente de Pterodáctilos, e reconhecidos no meio científico, são comuns.

Mas há a questão do fogo: como uma criatura viva poderia expelir chamas pela boca sem se queimar?

O “Besouro Bombardeiro” é um animal vivo que faz isso, expelindo um líquido flamejante produzido por uma reação enzimática. Segundo o documentário, num dragão, tal capacidade viria de um metabolismo singular, cujas bactérias ao digerir o alimento no organismo liberaria Hidrogênio, gás mais leve do que o ar e inflamável, ao invés do Metano e outros gases como acontece nos seres humanos e outros animais. Isso explicaria, ainda, como uma criatura tão grande poderia se manter no ar, auxiliados por de bolsas infladas com Hidrogênio e por ossos de arquitetura semelhante à dos pássaros.

Outras teorias sustentam que as chamas viriam de uma substância que uma vez em contato com o ar, entraria em combustão, como um dos isótopos do elemento químico Fósforo (P).

Se os fósseis apontam de fato para a existência de dragões, e sendo estes pré-históricos, como então os dragões podem ter sobrevivido à grande extinção dos dinossauros?

Pode ser que os “fósseis de dragões” contemplados pelos nossos ancestrais fossem de tempos posteriores à grande extinção (na Pré-história há milhões de anos entre o “início” da História propriamente dita e a suposta data de extinção dos dinossauros), a qual em si mesma é uma hipótese: pode ser que nem todos os dinos foram extintos, neste caso, os dragões teriam sido uma dessas espécies que sobreviveram no mundo (a capacidade de voar teria sido um fator determinante) até serem extintos por um outro motivo.

No meio científico, é indiscutível que a causa da extinção do Mamute, o ancestral do elefante moderno (e lembrado na literatura de Tolkien através dos gigantescos “olifantes” ou mûmakil do povo haradrim, talvez um marco cronológico interessante para se estimar em que ponto da linha cronológica “real” os contos de Tolkien poderiam ser situados) foi devida à sua caça contumaz por seres humanos. Da mesma forma, especialmente pela ameaça que representavam, não seria exagero afirmar que os dragões foram extintos pelo homem até a Idade Média, período rico em relatos de perseguição das feras, e após a qual cessaram de uma vez.

Finalmente, por que um dragão como Smaug pilharia tesouros? Talvez não por ganância propriamente dita, mas pelo fato de tesouros como os dos anões serem mantidos em galerias secretas ou cavernas nas montanhas, lugares preferidos pela criatura para estabelecer seus covis, como é de costume dos répteis; ou ainda pela fascinação com o brilho do ouro e pedras preciosas, comportamento típico de várias espécies, como os avestruzes, por exemplo.

Daí se eles podiam conversar com outros seres falantes como um hobbit invisível, então fica a critério da imaginação pura simples, pois, biologicamente, contrariando o relatado em muitas lendas, isso não teria sido possível (a menos que, além de resistente ao fogo, suas bocas tivessem de um aparelho fonador semelhante ao do ser humano, que aliás, é o único animal conhecido até então com essa capacidade, mas nunca saberemos se isso foi ou não verdade).

Esperemos o Smaug na tela dos cinemas aparecer para “ver mais de perto” sua extinta (?) espécie.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Por que um anel?



 Frodo e Sam com o Um Anel


“Bilbo estava designado a encontrar o Anel, e não por quem o fez.” Gandalf a Frodo, em “A Sociedade do Anel”.

O título dá forma a uma pergunta que já deve ter sido feita por vários leitores, fãs e iniciados da obra-prima de J.R.R.Tolkien:

Por que Tolkien escolheu o anel como objeto em torno do qual giraria sua narrativa?

Desde os primórdios, os anéis são artefatos comuns a todos povos e civilizações humanas, confundindo-se com seu próprio surgimento, com as mais diversas utilizações, representando ligações entre pessoas, poder, títulos, recompensas ou simples objetos de adorno.

Talvez exatamente por ser uma peça antiga, os anéis logo passaram a ser associados a poderes mágicos, transformando-se em “talismãs” e carregando outros poderes sobrenaturais, de acordo com a crença de vários povos.

Já na antiguidade, o filósofo grego Platão narra a lenda do “Pastor de Gyges”, o qual encontra por acaso um cadáver com um anel que ele toma e logo descobre que lhe dá o poder da invisibilidade.

Na mitologia nórdica e anglossaxã, cuja tradição oral foi vertida em escrita após a cristianização dos povos do Norte europeu, textos como o germânico Nibelungenlied e o nórdico Edda, por exemplo, mencionam o “Anel dos Nibelungos”, artefato mágico forjado pelo anão Alberich, quem é levado à presença do deus Odin e despojado dele (curiosamente, o anão o chama de “meu precioso”, e amaldiçoa com a inveja e a perdição seu novo dono, pois ele o considerava seu maior bem). Com o anel numa das mãos, Odin se sente dono de uma força nunca antes sentida, e é tomado por uma enorme afeição por ele, ignorando as tragédias que ele daria causa.

Como estudioso dos mitos europeus, especialmente da Escandinávia, é evidente a influência do imaginário nórdico na criação dos Anéis de Poder na literatura de J.R.R.Tolkien.

Em sua literatura, os anéis de poder foram forjados durante a Segunda Era, quando Sauron, o qual ainda possuía um corpo físico com aparência não hostil, conseguiu aproximar-se dos elfos do reino de Eregion, estreitando relações com seus ferreiros. 

Sob influência de Sauron, os ferreiros de Eregion atingiram o auge do conhecimento em seu ofício, quando então os Anéis de Poder começam a ser forjados, no ano de 1500 da Segunda Era. São confeccionados nove para os reis humanos, sete para os reis anões, e três para os senhores élficos, os quais os recebem como “presentes” de Sauron com o engodo de que lhes dariam magicamente poder e prosperidade. 

Assim, em 1600, Sauron forja secretamente o Um Anel em Orodruin, a Montanha de Fogo, em Mordor (onde Frodo posteriormente o leva para destruição), para através dele comandar e dominar através dos outros anéis seus respectivos donos. Neste mesmo ano, Celebrimbor, senhor de Eregion e quem ajudou a forjar os anéis, percebe tardiamente as intenções de Sauron, de modo que os três anéis élficos são escondidos e inicia-se a guerra entre os elfos e Sauron. Celebrimbor é morto, Eregion é devastada, e Moria, o reino anão vizinho, fecha seus portões.

O terror de Sauron nesse período só é contido quando Tar-Minastir, rei de Númenor, um poderoso reino humano situado no além-mar a oeste, envia uma frota para combatê-lo. Após sua derrota, Sauron concentra suas forças no leste, onde já havia edificado sua fortaleza Barad-dûr quando forjou o Um Anel, consolidando o reino sombrio de Mordor.

Aproximando-se de mais um filme da trilogia “O Hobbit”, será discorrido a seguir sobre a relação de dois de seus principais personagens com os anéis de poder de Sauron.

O anel de Gandalf

É um fato nem sempre lembrado ou conhecido por muitos, mas Gandalf tinha um anel mágico, apesar de ter recusado o Um anel, mesmo diante da oferta de Frodo, para que o guardasse:

“Não me tente! Pois não quero ficar como o próprio Senhor do Escuro. Mas o caminho do Anel até meu coração é através da piedade, piedade pela fraqueza e pelo desejo de ter forças para fazer o bem.” (A Sociedade do Anel). (Já o outro mago Saruman, como é sabido, cobiçava o anel particular de Sauron, não se importando com toda maldade que ele carregava e gerava, a fim de saciar sua sede de poder e domínio).

Gandalf chegou à Terra Média após o primeiro milênio da Terceira Era, quando os poderes das Terras Imortais decidiram enviar mensageiros, os Istari (magos) para fazer frente ao poder de Sauron, que mesmo derrotado durante o Cerco de Barad-dûr (3434-3441 da Segunda Era), começava a ameaçar novamente a Terra Média tentando recuperar seu poder através do Um Anel cortado de sua mão pelo rei humano Isildur.

Assim, Saruman e Gandalf, “o Peregrino Cinzento”, eram considerados os maiores dentre os cinco magos enviados. Ao chegar aos Portos Cinzentos, no litoral oeste da Terra Média, Gandalf foi recebido por Círdan, o elfo senhor dali, quem “enxergava mais longe e mais fundo que qualquer outro na Terra Média”, oferecendo-lhe um anel, dizendo:

“- Tome este anel, Mestre – disse ele, pois seus trabalhos serão árduos; mas ele irá ajudá-lo na cansativa missão que você tomou para si. Pois este é o Anel de Fogo, e com ele você poderá reacender corações num mundo que se esfria.”

Tratava-se nada menos do que um dos três Anéis de Poder dados por Sauron aos três maiores dos eldar, a raça élfica: Gil-galad (morto durante o cerco a Barad-dûr), Galadriel (Senhora de Lothlórien) e o próprio Círdan, quem em sua profunda sabedoria soube como reverter o feitiço de Sauron contra ele mesmo ao enxergar em Gandalf seu imenso desejo de fazer o bem entregando-lhe o anel.

Vale observar que os anéis élficos não corromperam os elfos e nem eram totalmente maléficos porque não foi Sauron quem os fez, nem sequer os tocou, e sim os próprios elfos de Eregion. Ainda, eles foram preservados quando Celebrimbor descobriu os planos de Sauron e fez com que fossem escondidos a tempo. Contudo, o Um Anel ainda teria influência sobre eles, se Sauron conseguisse resgatá-lo e ampliar seu poder maligno.

O anel de Thorin

Por direito, Thorin era o dono de um dos anéis forjados por Sauron para os sete reis anões, uma vez que era descendente de Durin, o senhor de uma das sete casas anãs. 

Quando Sauron percebeu que os anéis mágicos eram inúteis em seu intento de dominar a raça anã, a qual devido à sua natureza não poderia ser transformada em sombras nem controlada (outro fracasso de sua estratégia de dominação), o Senhor do Escuro logo tratou de perseguí-los para tomar-lhes os anéis, cujo efeito neles apenas aumentava sua ambição por metais e os enriquecia.

Quatro deles já haviam sido perdidos, derretidos pelo fogo dos dragões que pilharam os grandes tesouros dos anões um por um. Dentre os três que restaram, um pertencia à Thrór, avô de Thorin, quem o repassou a Thráin, seu filho, antes de partir para Moria e lá ser morto pelo orc Azog.

Após terem vingado Thrór na longa guerra contra os orcs, Thráin juntamente com o filho Thorin e os sobreviventes de Azanulbizar retornam à sua vida de exílio, posto que Erebor, seu reino, fora tomado pelo dragão Smaug.

Certo dia, Thráin decidiu partir em direção a Erebor juntamente com poucos do seu povo (Thorin não fora incluído). Quanto mais se aproximava de seu destino, mais obstáculos e adversidades eles encontravam pelo caminho, pois Sauron descobrira de algum modo que Thráin tinha um dos três anéis restantes e colocou suas forças à sua espreita. Assim, em um dado amanhecer, seus seguidores deram pela sua falta, e muito procuraram e chamaram-no, sem sucesso, quando finalmente decidiram retornar.

Thráin fora capturado por agentes de Sauron e levado para Dol Gudur, onde prenderam-no e torturaram-no até a morte, tomando-lhe o anel mágico.

Assim Thorin perdeu o pai e o único tesouro que restava de seu reino. 

Quanto aos outros dois anéis mágicos, acredita-se que eles jazeram sob os escombros de Barad-dûr, quando Sauron fora definitivamente destruído juntamente com o Um Anel. Seja como for, com a destruição de Sauron e seu Anel, todos os outros perderam o poder.

Mas a perda do anel tampouco pode ser vista como desvantagem para Thorin: o anel apenas atiçaria a sua cobiça, e lhe traria tragédias semelhantes às de seu avô e de seu pai. Livre da maldição do anel presenteado por Sauron, Thorin ficou livre para seguir o que seu coração realmente queria, com força suficiente e natural: reconquistar Erebor, feito que teria grande peso no futuro da Terra Média ao restaurar um grande baluarte contra Sauron (ver post “Como Thorin e os anões salvaram a Terra Média”).